sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Capítulo XXVIII - "A Carta nas Quatro Estações"

Neste desgelo, da última nevada, com vontade de ir à civilização, depois de estar três dias, fechado em casa, havia uma necessidade de comprar géneros alimentícios. O carro para não fugir à regra estava com a bateria em baixo. Tive que pedir auxílio a um amigo da vila, que curiosamente me disse: - “ Não sei onde vou estar, sou como o vento!”. Fiquei a pensar na sua frase, e realmente, às vezes andamos ao sabor do vento, coisas da serra, que nos leva pelos sentimentos ancestrais, de um isolamento histórico, só quebrado pelo empenho do pároco da vila, homem de convicções, que deu cinquenta anos da sua vida a este povo serrano.
Este mês de fevereiro, será como um teste à minha capacidade de sobrevivência. Os recursos são muito poucos, quase impossíveis de sustentar a minha vida mundana. Encravado na minha própria sustentabilidade, vejo que o dinheiro é um demónio que nos enxerga, e nos torna dependentes. É de fato uma droga dura, sem tratamento imediato. Depois das despesas fixas pagas, pouco resta para o dia-a-dia, mas vou tentar combater mais esta barreira que aflige minha alma. Sempre esperarei por dias melhores, onde posso sossegar esta minha aflição materialista.
Certamente os povos na época recolectora, sobreviviam, e eram, penso eu, felizes. Esta invenção das civilizações; o salário, ou dinheiro, que no início da sua implantação nas sociedades, não passava duma mera troca por bens, e era um bem adquirido nos recursos naturais, o famoso “sal”. Agora, passados milhares de anos, são os mercados económicos, e grandes banqueiros, que ditam a nossa sorte. Estou consciente que não posso fugir a esta “sina”, mas também, farei sempre o essencial, largar-me do supérfluo, e viver em paz comigo.
Este fevereiro de nevadas constantes, fazem com que me mantenha, mais por casa, que até é bom. Trabalho mais nos meus escritos, mesmo que seja para a gaveta, porque as edições estão muito difíceis.  

Quando regressei da sede do concelho, o sol raiava por entre as nuvens brancas e batia nas montanhas, ainda cobertas por mantos de neve. A fusão destes elementos da natureza, à medida que subia para o meu lugar serrano, fizeram, dizer em voz alta, mesmo que ninguém me ouvisse, só eu, Deus e a natureza; “Como é belo este alto Minho serrano!”

Quito Arantes

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