sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Convidada Andrea Carvalho

 a menina da biblioteca: uma história de fantasmas


boa noite meu querido h.adams...tem tanta coisa acontecendo por esses dias...tomara que você esteja bem nas andanças que vem fazendo. por aqui ando preocupada com um assunto. veja se não é motivo: lembra da dona rúbia? a velha bibliotecária?está doente, internada em um sanatório. ela insiste em dizer que a biblioteca está mudando de lugar e que há fantasmas por lá. fiquei com muita pena e fui visitá-la. percebi que estava mais lúcida que nunca, cansada, mas sem sinais de loucura e nem me pareceu tão velha assim. escuta a história que ela me contou: - está madame, eu sei que está mudando...não estou tendo alucinações, não sou doida, nem tenho a imaginação tão fértil assim. vou contar pra senhora: todo dia quando chegava pra abrir o prédio as cadeiras tinham mudado de lugar. as mesas, tudo mudava. no primeiro dia eu pensei que estava apenas distraída. abri a porta como de costume, e carregava uma porção de livros que havia guardado em casa pois precisavam de uma reparação ou outra. fui direto para minha mesinha, e coloquei os livros em cima da cômoda auxiliar, ao lado do telefone antigo. os livros foram todos parar no chão. a velha cômoda não estava lá. muito antiga, deve pesar toneladas, e não havia marcas no chão, ninguém teria força pra empurrar sem marcar o chão. ela simplesmente não estava lá. imaginei que o administrador pudesse ter retirado o móvel durante a madrugada, para sei lá, não atrapalhar ninguém. em dia de provas finais a biblioteca fica lotada e não tive mais tempo pra pensar no assunto. no outro dia novamente cheguei no horário de sempre, e desta vez eram as cores que haviam mudado. antes era um tom pastel que tomava conta do ambiente, mas estava tudo mudado. passou a ter tons cobres e avermelhado. os primeiros alunos chegaram ruidosos, dando os parabéns pelas mudanças: - a nova cor está linda, senhorita rúbia, me disse a menina bonita de olhos grandes. eu conheço essa menina? me perguntei. não. eu não sabia quem ela era, mas como todo dia milhares de alunos passam por ali, não registrei o desconforto que senti quando me sorriu e arrumou os cabelos longos e pretos. tirei aquela imagem da cabeça e não pude deixar de pensar a que horas os pintores e marceneiros tinham ido trabalhar. quando ia pegar o telefone pra perguntar para o administrador, fui interrompida por um grito que vinha da ala dos livros policiais. corri com alguns alunos que estavam próximos e encontramos, jogada ao chão, a tal menina dos cabelos negros. imóvel, respirando, mas sem abrir os olhos. desmaiada mesmo. jogamos água gelada no rosto dela, fiquei meio desesperada, o que teria acontecido? sem dar explicações a menina abriu os olhos para alívio da plateia que já se aglomerava por ali. novamente sorria, e o tal sorriso enigmático estava ainda pior. tinha nele um quê de maldade, lascivia e mistério. perguntei a ela o que tinha ocorrido e ela me disse que nada, que não se lembrava, tinha apenas  a lembrança de estar lendo e de repente estar no chão com várias pessoas ao redor . - deve ter sido um desmaio apenas, estou sem comer há horas, não há com que se preocupar, disse ela já levantando. fiz a menina me prometer que iria ao médico. -sim, senhora, prometo, e saiu caminhando, quase saltitando de alegria. - que menina estranha! segui com o dia atarefado e nem pensei mais na menina, nem nas mudanças da biblioteca. duas semanas depois, mais um susto. desta vez foi ao final do expediente. fiquei até mais tarde na biblioteca, organizando a ala dos livros de história, quando novamente escutei um grito. mas eu não estava sozinha? fiz a ronda e não vi ninguém...quem será o engraçadinho que ficou aqui dentro às escondidas? ah eu pego esse menino, pensei. e fui correndo em direção ao grito, novamente na seção de livros policiais. ouvi risadinhas abafadas. pronto, é uma menina. ah essas garotas....mas ao entrar no corredor escuro, não havia ninguém! nem a luz estava acesa. nada. não ouvi passos, nem uma respiração. procurei embaixo das prateleiras, atrás dos livros, e nada. ah que diabos, agora estou ouvindo vozes, falei comigo mesma. caminhei novamente por toda a biblioteca, nos três andares e nada. olhei em todas as direções, imaginando se a menina tinha subido a escadaria escondida de mim. não achei ninguém, não ouvi nem um éstalar de madeira. quando voltei pra seção de história, todos os livros estavam abertos no chão. um ao lado do outro e abertos na página 59. todos. eu simplesmente sai correndo. fui embora, tranquei a porta e voltei no outro dia, podre de cansada depois de uma noite insone. os livros já estavam arrumados! quem arrumou??? passei em revista o prédio todo. e na prateleira  de policiais, próxima aos clássicos um vento frio me fez arrepiar. mas não temos janelas na seção de clássicos...quando sai pra pegar um casaco, a menina dos cabelos longos e negros estava parada no final do corredor. sem sorrir, sem piscar, sem se mexer. estava lá , me esperando. e ficou assim, parada. fui até ela e perguntei o que estava fazendo ali. - a biblioteca ainda está fechada para o público, expliquei eu. ela se virou e foi em direção a porta de saída. entrou em um corredor próximo a minha mesa, e não ouvi abrindo a porta pra ir embora. fiquei intrigada, já começando a falar alto, repreendendo a menina a levar à sério o aviso de que a biblioteca estava fechada. tinha começado meu discurso quando vi que a menina não estava em lugar nenhum. ela sumiu. eu vi a garota, não estou inventando. gritei por ela, e não tive resposta. eu já estava em um estado de nervos à flor da pele e comecei a chorar. quando estava me recuperando, as lágrimas secando nos olhos, percebi que alguma coisa estava errada com os quadros na parede:  todos de cabeça pra baixo! novamente ouvi umas risadas e fui direto ao telefone. telefone que também não estava mais lá. corri pra porta da biblioteca, tropecei em uma cadeira que apareceu do nada no saguão e decidi ir até o administrador. fui á pé, rapidamente, nem percebendo as pessoas que me olhavam com um ar de espanto. sim, eu estava chorando, despenteada, com olhos inchados, uma figura triste e louca. contei tudo de um fôlego só para o administrador e ele me disse com todas as letras: não estava fazendo reforma, nem mudando as cores, nem tirou nenhum móvel de lá. e nunca deu autorização pra ninguém entrar fora do horário de serviço. não há cópias das chaves e ele instalou um sistema de alarme impossível de entrar ou sair sem ser notado. meu chão desapareceu, eu ia desmaiar ali mesmo na frente dele. pedi para pelo amor de Deus ele me acompanhar até a biblioteca e ele foi. chegando lá, alguns alunos esperavam do lado de fora. entramos juntos e pra minha supresa e de todos, os livros da biblioteca toda estavam rasgados! voavam folhas por todo o salão. retrato de um momento de fúria real. os alunos curiosos começaram a tirar fotos, o administrador ficou lívido e chamou a polícia e eu fiquei embasbacada, sem saber o que fazer. comecei a arrumar as coisas e percebi que em todos os livros havia sobrado uma única página: a página 59. bagunça arrumada, perícia feita, fiquei para fechar tudo. o administrador me deu ordens para que encomendasse novos livros ainda naquela tarde. isso demorou e me consumiu mais tempo que o planejado. ao sair do prédio, percebi que tinha esquecido uma luz acesa, próximo a minha mesa. entrei novamente e pra minha surpresa nenhuma luz estava acesa. andei em volta e percebi um vulto atrás do corredor maior. e lá estava ela novamente: a menina dos cabelos negros. desta vez sorria pra mim. e quando fui até ela, saiu correndo e rindo...corri atrás dela que foi em direção aos livros policiais...derrubou um único livro da estante e saiu correndo novamente. peguei o livro do chão. e madame, a senhora tem que acreditar em mim: a garota da capa do livro era a menina dos cabelos negros. o livro era "a morte de isabel lucas - um mistério nunca desvendado", de 18....isso tem muitos anos madame. a menina isabel era a menina que eu estava perseguindo. - a senhora acredita em mim? então eu abri o livro e na página 59 havia outra foto da menina. dela com a irmã gêmea isadora. a história das duas é conhecida na cidade. isabel e isadora eram duas irmãs muito unidas. isabel era mais rebelde, mais atrevida. isadora era meiga, quieta. as duas desapareceram por um bom tempo, os pais ficaram desesperados , um belo dia isadora apareceu vagando pelas ruas da cidade, toda suja de terra, ferida, com a roupa rasgada, e sem lembrar de nada. nada. ela foi internada e morreu alguns dias depois por conta de uma pneumonia. mas nunca contou onde esteve com a irmã, nem por onde andou nem deu pistas de onde isabel poderia estar. os pais nunca desistiram de procurar, mas morreram sem saber notícias da filha. e a menina nunca mais voltou. a polícia   nunca descobriu o que houve.nunca encontraram o corpo da menina. virou livro por conta do mistério que envolveu a história. e agora eu sei madame, ela estava lá na biblioteca. larguei o livro na estante e senti um cheiro de queimado. madame, não fui eu. eu nunca iria provocar um incêndio. eu estava lá, não queria morrer, porque eu colocaria fogo no lugar? mas o fato é que as labaredas começaram na minha frente, sem que houvesse ninguém pra atear o fogo. e se espalharam rapidamente. eu consegui sair por um milagre! fui resgatada já sem ar, e quando estava sendo retirada pelos bombeiros, ainda pude ouvir a risada da menina. olhei para trás e vi um vulto meio escondido, era ela. estava sorrindo se escondendo atrás da prateleira. a senhora tem que acreditar! não acharam ninguém além de mim . a senhora acredita? adams meu querido, eu acreditei naquela mulher. fui até a biblioteca que está fechada desde o incidente. a dona rúbia me deu a cópia das chaves. o sistema de alarme foi desligado até a reinauguração do prédio que está destruído. faz um frio infernal naquelas salas.ainda tem muita coisa espalhada por lá, está tudo meio sujo, o cheiro de queimado ainda está no ar. mas o que é impressionante é o frio. andei entre os destroços, e reconheci a cômoda que dona rúbia havia mencionado. ela está inteirinha, nem uma labareda encostou nela. e meu querido, acredite, ao lado da cômoda uma cadeira intacta com o livro sobre isabel em cima, aberto na página 59. claro que peguei o livro. trouxe comigo pra ler em sossego. antes de chegar em casa encontrei o dr. vasques, o delegado, você conheceu no jantar na casa da veridiana, lembra? falei com ele que estava voltando da biblioteca e que tinha encontrado um livro intacto. ele pediu pra ver e confiscou o livro. acredita que o fato do livro ter sido encontrado dentro da biblioteca pode ter alguma digital de quem ateou fogo no prédio. entreguei o livro a ele e tive que explicar como consegui entrar na biblioteca. o delegado disse que não ia registrar nenhuma ocorrência já que a dona rúbia tinha me dado as chaves por iniciativa própria. há poucos dias encontrei com dr. vasques na farmácia, com olheiras profundas. perguntei se estava bem e ele não me pareceu muito bem não. falava ofegante, parecia com medo, olhando em volta a todo instante, suava mesmo com o frio do outono. engoliu duas aspirinas ali mesmo, sem água, dizendo que a dor de cabeça tinha piorado desde a noite anterior. ele não havia encontrado digitais no livro, só as minhas. e as dele claro. - nenhuma? num livro tão velho? nem da dona rúbia? - nem da dona rúbia, me disse ele, e mais: não havia registro dele no sistema da biblioteca, e não havia como saber quem já tinha lido aquele livro. era uma publicação velha e sem passado. dois dias depois fui até a delegacia para ver se dr. vasques estava melhor e não, ele não havia melhorado. em tom de confidência me contou que estava ouvindo risadinhas pelos cantos. - madame, a senhora tem estudo não é? me diga, eu estou ficando doente? pareço doente? me sinto cansado. ouço essas risadas, alguns sussurros, e ando esquecendo as coisas. por exemplo não sei o que fiz com duas cadeiras da sala lá em casa. elas sumiram. meu quadros amanheceram no chão. e um sofá está todo rasgado, como se apunhalado por uma faca imaginária. dona, eu sei que não fiz aquilo. e agora vira e mexe vejo uns vultos no espelho. hoje vi uma menina de cabelos negros sorrindo pra mim na porta de casa. posso jurar que era a menina do livro. e ela sumiu! e tenho sonhado com sangue, muito sangue. sai de lá preocupada com ele. ontem, a tragédia anunciada: a casa do delegado pegou fogo. ele não conseguiu ser resgatado e morreu no incêndio. pobre dr. vasques. os bombeiros informaram que possivelmente alguma guimba de cigarro tenha provocado o fogo, mas o dr. não fumava! e eles encontraram um livro. h. nem vou perguntar que livro é. não tive coragem de visitar d. rúbia novamente. e o livro tá lá, guardado na delegacia. é ou não é pra eu ficar preocupada? espero que você esteja bem e me mande notícias. um beijo, sua eternamente, eu.

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Andrea Carvalho é jornalista da Rede Record.
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8 comentários:

Simone Moura disse...

Adorei a história. Quero mais! Simone Moura

andrea carvalho deca disse...

simoneeeee, entre no meu blog cartasdemadamered.blogspot.com.br lá tem vários contos hehehhe uns mais picantes, outros mais apavorantes...beijoca.

Will Moa disse...

Delícia de criatividade!

Anônimo disse...

Deca, querida, quanta criatividade. Li em minutos sem piscar os olhos.
Muito bom! Parabéns.

Rachel Vargas

andrea carvalho deca disse...

criatividade não falta heheheheh. beijoca. brigada por prestigiar.

valeriopontes disse...

Toda essa carga de livros e filmes do gênero fizeram muito bem ou muito mal para vc. kkkkk. Parabéns, um ótimo conto e um final melhor ainda. Bjs.

andrea carvalho deca disse...

tenho mais contos...é só ir na minha página de ficção:
www.cartasdemadamered.blogspot.com.br

Anônimo disse...

Muito legal! Adorei! Parabens!